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O problema dos “CAI: crente com aversão à igreja”

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Era uma 5° feira chuvosa, quase 21hs quando cheguei na frente da casa do Matias (nome fictício), fazia muito tempo que o estava acompanhando, fiz tudo que estava ao meu alcance para ajudá-lo, orei, jejuei, aconselhei, ensinei, dei bíblia, livros, dvds e tive paciência em todo o tempo que andamos juntos. Ele veio de um histórico complicado em diferentes igrejas, e pra piorar foi criado numa família abusiva onde foi muito ferido, por isso era amargurado e desacreditado com família e igreja. Por muito tempo fizemos cura interior, libertação e diversos estudos e aconselhamentos que o ajudassem a superar o passado, perdoar e ter uma visão de igreja e família que fosse alinhada com o que a bíblia ensina, e não a imagem distorcida pelo vulcão emocional de seu passado.

Nessa noite chuvosa eu fui a casa dele com um grande aperto no coração, porque como qualquer pai na fé queremos ver o plano de Deus se cumprir na vida daqueles que cuidamos, e definitivamente Matias estava longe disso, apesar de todo esforço e boa disposição em ajudá-lo, Matias insistia radicalmente em trilhar um caminho muito perigoso, ele era o típico “CAI: crente com aversão à igreja”, e como tal, tinha o hábito de detonar igrejas, pastores e ministérios!

Sua opinião era de que tudo ao seu redor era uma “farsa”, todos eram “hipócritas”, todos eram manipulados pelo “sistema” pelos “fariseus do século 21”, Matias sempre se colocava numa posição de julgar tudo e todos, a critica era praticamente sua sombra. NADA estava bom na igreja, TUDO era errado e uma “piada”, ainda assim ele continuava indo a igreja, óbvio que sem se envolver, sem servir e sem assumir responsabilidades, era um “envolvimento” passivo e egoísta, ir a alguns cultos, ver algumas reuniões e fazer seus comentários sempre carregados de emoção.

Matias tinha os costumes típicos de um “CAI”: dizer como as coisas deveriam ou não ser feitas, criticar, acusar, gostava de polemizar com questionamentos sobre avivamento, dizia que a igreja estava longe do “verdadeiro” avivamento (que supostamente ele vivia em sua vida pessoal, ao menos em seu conceito), adorava criticar a eficiência da igreja em evangelismo, mas ele mesmo nunca ganhava ninguém pra Jesus, e muito menos se dispunha a cuidar de novos convertidos, não assumia responsabilidade nenhuma, questionava o real significado da palavra oração no contexto da igreja atual, pois Matias gostava de estudar hebraico e assumir uma postura de teólogo, no entanto apesar de julgar a vida de oração de todos da igreja e de expor seu vasto conhecimento das palavras bíblicas em hebraico, Matias não orava, não tinha uma vida de oração constante, não tinha constância mesmo em sua vida natural, mas não pensava 2x antes de abrir a boca como juiz das outras igrejas e ministérios além da igreja local a qual teoricamente “servia”.

Matias sempre compartilhava em suas redes sociais piadas de igreja (igualzinho escarnecedores que não tem o menor relacionamento com Deus fazem) e não se importava com isso, afinal, lá no íntimo não se considerava parte dessa “igreja”, então dava vazão a toda sua ira e ironia através de seus posts sempre teologicamente corretos (em seu conceito). Sempre polemizava o “real” significado da palavra bíblica neotestamentaria revolucionária de “igreja” para justificar seu comportamento injustificável.

Ele era vidrado em “batalhas espirituais”, queria lutar pessoalmente com lúcifer para conquistar o mundo pra Jesus, mas nunca se juntava a igreja local quando promoviam alguma vigília, vivia reclamando que a igreja tinha que ir pras ruas, mas nunca se juntava a igreja local quando ela ia pras ruas porque em sua vasta “sabedoria e revelação” a forma que iam pras ruas não era a forma “correta” (forma que somente ele sabia). Matias era fã da música “é proibido pensar” do João Alexandre, e partilhava do mesmo pensamento do autor da música: que Deus o levantou para denunciar as falhas da igreja!

Imagino que Tiago 5:16 na versão “CAI” em vez de “confessai VOSSOS pecados uns AOS outros para serem CURADOS” era algo como: denunciai os pecados ALHEIOS uns DOS outros para serem CONTAMINADOS! 

Quem escutasse o discurso revolucionário do Matias sobre avivamento, dízimo, evangelismo, curas, batalhas espirituais, poderia imaginar que ele era um cristão fervoroso, disciplinado, cheio de compaixão pelas almas e um homem de caráter, afinal jogava tanta pedra na igreja que não havia nenhum pecado em sua vida, correto? Não, na verdade Matias tinha pecados de todas as formas, cores e cheiros com seu estilo “Che Gevara gospel”, desde maledicência e fofoca até amargura e pornografia, e nessa 5° feira chuvosa eu estava profundamente triste porque depois de muito tempo caminhando com Matias tentando ajudá-lo, me dei conta que o Matias gostava de sua conduta pecaminosa, na verdade já era um vício, Matias não tinha relacionamento pessoal com Jesus, nunca tinha dado uma cheirada Nele, por isso ficava entediado no louvor e depois criticava o culto. Como ele nunca tinha dado um chamego em Jesus ele ficava irritadíssimo quando tinha um culto onde Deus se manifestava de uma forma diferente a que ele esperava, ele julgava os que “se jogavam” no chão pra “fingir” ter caído no Espírito, aliás, cair no espirito é uma baita heresia na religião inovadora dos “CAI”, o culto deve ser comportado, ou melhor, Deus deve se comportar de acordo com as regras de culto dos “CAI”.

O mais triste é que o Matias nunca se arrependeu, ainda que confrontado ele insistiu em seguir seu caminho de um típico “CAI”, e o pior é que existe vários “Matias” por aí, indo a igreja, com um discurso lindo e maravilhoso de como a igreja deveria ser, o que deveria fazer, qual o “verdadeiro” significado disso ou daquilo, mas o fato é que muitos “CAI” cultivam pecados de todos os tipos, e ainda que tenham uma conduta detestável que faz Deus vomitar, se colocam na posição de juízes ministeriais de tudo e todos! Quando olhamos um ateu, um incrédulo, um escarnecedor, um camarada que despreza Deus e olhamos um típico “CAI”, não vemos diferença nas atitudes! O comportamento prático está anos luz longe de refletir Jesus, com palavras e ações, a conduta de vida deles é detestável, se dizem amigos de Deus mas são melhores amigos do mundo, fazem justamente o contrário do que a bíblia ensina, eles definitivamente amam as coisas do mundo e se deixam enredar por elas, mas em suas teologias “cai” essas coisas de santidade não são “bem assim” como está na bíblia, tudo é relativo e uma questão de interpretação, lembre-se que eles são especialistas em hebraico!

Muitas vezes me perguntei: Porque o Matias continua indo a igreja? Quero dizer, se realmente ele pensa ser o dono da razão e que a igreja é uma piada, um verdadeiro circo com palhaços, porque ele não deixa de ir então? Então com o tempo me dei conta que tem muita gente indo a igreja com diferentes motivações, muitos se sentem aceitos, se sentem úteis, fazem amigos, são admirados por algum talento, encontram uma razão qualquer que os motiva ir a igreja, ainda que sem amar Jesus e sem se relacionar pessoalmente com Ele e isso é um perigo, é uma bomba relógio!

A situação é triste, eles estão por todos os lados, “crentes” independentes que olham só pra um lado da bíblia, “o reino”! O discurso (que até soa espiritual) é que o importante mesmo é o reino de Deus! Jesus ensinou sobre o reino de Deus, é verdade, sem sombra de dúvidas isso é verdade, mas a mesma bíblia que valoriza o reino e a igreja global de Jesus na terra também ensina a importância da igreja local, tem um equilíbrio! Porque pastores e missionários muitas vezes não se entendem? As vezes parece água e óleo que não se misturam! Porque? Se de um lado tem pastores que tem uma visão limitada as 4 paredes da própria igreja que pastoreiam, do outro lado tem missionários com uma visão igualmente limitada porque olham a necessidade do mundo todo, de toda via láctea, mas não conseguem ver a necessidade entre as 4 paredes! É engraçado, porque o missionário tem a tendência de ficar irritado vendo o pastor gastar dinheiro investindo num ar condicionado pra igreja enquanto tem crianças morrendo de fome na África, e do outro lado o pastor fica incomodado com a incoerência do missionário de querer ganhar o mundo todo pra Jesus, mas não querer frequentar um grupo pequeno da vizinhança pra um estudo bíblico. Qual dos 2 está certo?

Ambos! Cada um tem uma parte da verdade, o pastor geralmente carece da visão do Reino de Deus, e o missionário por sua vez também carece da visão da igreja local, simples assim! Os “CAI” é um caso mais complicado porque carecem de arrependimento e não entendem o que Jesus fez na cruz. Tenho a impressão que um Matias da vida, apesar de saber meia dúzia de versículos de cabeça, até hoje não entendeu o abc do plano da salvação!

Lembro-me de uma piadinha que o Pr Thomás fazia de que é muito fácil amar os irmãos da China, o difícil era amar os irmãos de Curitiba (que era o lugar da igreja local)! Ter a visão do reino sem dúvidas é importante, mas tão fundamental quanto o reino é a visão da igreja local. É mole falar de perdão, submissão, amor e serviço quando você globaliza a coisa, é diluir a responsa que todo crente tem, de uma forma muitas vezes teórica e abstrata, quando falamos de servir numa igreja local, o discurso moralmente revolucionário que todo “CAI” sustenta vai ganhando forma e vai se tornando mais prático e menos teórico, mais ações e menos palavras, por isso muitos “CAI” não gostam da igreja e relutam em se envolver nela, porque todo blá blá blá dito por eles é posto à prova.

Defendo radicalmente o envolvimento com a igreja local. Não digo que é pecado mudar de igreja porque a bíblia não diz isso, é possível sim mudar de igreja, ainda que seja um processo delicadíssimo, mas o problema é que tem muito “CAI” teoricamente ligado a uma igreja local, mas na prática não estão servindo, não são membros ativos (que oram, jejuam, se envolvem e dão espaço para alguém falar em suas vidas). Falar sobre autoridade espiritual é moleza, submeter-se, servir e aprender não é tão fácil assim.

A bíblia diz que se afirmamos amar a Deus que é invisível, mas não amamos ao nosso irmão que podemos ver e tocar, somos hipócritas! Penso que o mesmo princípio se aplica à serviço e submissão, é fácil diluir esses assuntos, difícil mesmo é dar forma ao discurso. Não é a toa que lemos na bíblia “não deixem de congregar”, desde aquela época já tinha a turma “CAI”, eles tentam criar um evangelho tão tendencioso pro “Reino” que criam uma religião onde igreja local é uma peça descartável ou teoricamente válida, sendo que na verdade o Reino e a igreja estão ligados, Jesus morreu pela igreja (pessoas) e a igreja deve espalhar o Reino, simples assim. Desassociar um do outro é como falar do fruto negando a existência da árvore, um dos problemas dos “CAI” é tentar ser soldado sem ser parte de um exército!

Talvez se algum “CAI” lesse esse post ia pensar que nunca vi ou vivi decepções na igreja local pra defendê-la tanto assim, na verdade é o contrário, já vi muita carnalidade na igreja, já vi muita coisa desalinhada com a bíblia, mas apesar disso tudo, aprendi perdoar, aprendi que a igreja erra porque todos lá dentro são seres humanos, e eu sou um deles, Jesus é o juiz da igreja e certamente vai julgá-la, não preciso assumir esse lugar, e também não esqueci que a igreja continua sendo a noiva de Jesus e o melhor lugar pra estar!

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